Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
Afrodisíacos...

 

A glutonice é um caminho directo para a luxúria e se se avançar mais um pouco, para a perdição da alma. A sexualidade é uma componente de boa saúde, inspira a criação e faz parte do caminho da alma; não se associa a culpa ou segredos, porque o amor sagrado e o amor profano provêem da mesma fonte e supõe-se que os deuses festejem o prazer humano.

 

Como definir afrodisíaco? Digamos que é qualquer substância ou actividade que espicaça o desejo amoroso. Alguns têm fundamento científico, mas a maioria actua por impulso da imaginação.

Alguns afrodisíacos funcionam por analogia, como as ostras em forma de vulva ou o espargo, de falo; outros por associação, porque nos recordam algo erótico. O mesmo critério se aplica nas lidas do amor. É bom dispôr de nomes sugestivos para as diferentes posições, como os sábios manuais eróticos da Ásia.

 

No que se refere à alimentação e à sexualidade, a Natureza exige um mínimo, muito simples, destinado à preservação do indivíduo e da espécie; o resto são ornamentos ou subterfúgios inventados por nós para festejarmos a vida. A imaginação é um demónio persistente, sem ela o mundo seria a preto e branco, e em que a energia hoje investida na boa mesa e no bom amor se destinaria a outros fins.

 

Os afrodisíacos são a ponte entre a gula e a luxúria. Suponho que num mundo perfeito, qualquer alimento natural, saudável, fresco, atraente para os olhos, saboroso e ligeiro – isto é, as virtudes que desejamos no nosso parceiro – seria afrodisíaco, mas a realidade é muito mais complicada! O único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o Amor!

Não se ganha em deter a paixão inflamada de duas pessoas enamoradas. Nesse caso não importam os achaques da vida, o furor dos anos, o entorpecimento físico ou a escassez de oportunidades, pois os amantes arranjam sempre formas para se amar, porque esse é por definição o seu destino. Mas o amor, tal como a sorte, vem quando não o chamam, instala-nos na confusão e esvai-se como fumo quando tentamos retê-lo. Do ponto de vista do seu valor estimulante é, portanto, um luxo de alguns afortunados, mas incansável para os que não foram feridos pelo seu dardo. Isto leva-nos ao segundo mais poderoso afrodisíaco: a variedade. A variedade renova o ardor amoroso uma vez e outra, o que explica a poligamia e a infidelidade, ambas esgotantes. Ao contrário dos homens, que só pensam no objectivo, nós, as mulheres, inclinamo-nos para os rituais e procedimentos.

 

Onde começa o paladar e termina o olfacto? São inseparáveis.

A tentação do café não nasce no sabor, mas deixa um rescaldo de fumo na lembrança, mas sim nessa fragância intensa e misteriosa de bosque remoto. Com os olhos fechado e o nariz tapado não conseguimos distinguir entre uma batata crua e uma maçã, entre gordura e chocolate. O nariz é capaz de detectar milhares de cheiros e o cérebro de os diferenciar, e no entanto, para esse mesmo cérebro costuma ser impossível distinguir entre luxúria e amor.

O olfacto é do ponto de vista da evolução, o nosso sentido mais antigo. É preciso, rápido, poderoso e grava-se na memória com uma persistência tenaz, daí o êxito dos perfumes, cujo segredo é usarmos sempre o mesmo, até o transformarmos num selo pessoal e intransferível, algo que nos identifica!

 

Tal como o aroma do corpo é excitante, assim também o é o da comida fresca e bem preparada. Os perfumes da boa cozinha não só nos fazem salivar como também nos fazem palpitar de um desejo que, se não for erótico, se parece muito com ele. Às vezes ao evocar o aroma de um prato saboroso, a saudade e o prazer comovem-me até às lágrimas... voltam à minha memória. O prazer de um sabor centra-se na lingua e no céu da boca, embora muitas vezes não comecem aí, mas sim na memória. E parte essencial desse prazer reside nos outros sentidos, a visão, o olfacto, o tacto, inclusivamente a audição. O sabor associa-se à sexualidade muito mais do que aquilo que os puritanos desejariam. Ao planearmos uma ementa devemos considerar os diferentes sabores para que se complementem e se distingam uns dos outros sem colidir.

 

Um jantar bem pensado é um crescendo que começa com as notas suaves da sopa, passa pelos arpejos delicados da entrada, culmina com a fanfarrice do prato principal, ao qual se seguem por fim os suaves acordes da sobremesa. O processo é comparável ao de fazer amor com arte, começando pelas insinuações, saboreando os jogos eróticos, chegando ao clímax com o estrondo habitual e, por fim, mergulhando num afável e merecido repouso. A pressa no amor deixa um ardor de ira na alma e a pressa na comida altera os humores fundamentais da digestão. As papilas gustativas, como outros os orgãos também se cansam. Nos banquetes e restaurantes de luxo é costume servir entre dois pratos fortes uma pequena dose de gelado agridoce para apagar qualquer rasto do primeiro antes de se provar o segundo. A temperatura tem tanta importância como a textura e a cor, tudo influi na sensual experiência de uma refeição.

As plantas são afrodisíacos subtis e, como o amor, actuam sem estrondo, discretamente e a longo prazo. Como não ter confiança nelas se quase toda a farmocopeia moderna se apoia nelas?

As ervas e as especiarias são a alma da sua cozinha, não só porque convertem qualquer prato num potencial afrodisíaco, como também porque dissimulam os erros culinários. A comida, tal como o erotismo, entra pelos olhos...

Também na comida a linguagem é afrodisíaca; comentar os pratos, os seus sabores e perfumes é um exercício sensual para o qual dispomos de um vasto vocabulário, muito engraçado, cheio de metáforas, referências, humor, jogos de palavras e subtilezas...

A música também contribui para fazer da comida uma experiência sensual, por isso é abominável o espectáculo dos que se sentam à mesa com o barulho de um jogo de futebol ou das más notícias da televisão. Nos banquetes de outrora não faltavam os quartetos de corda numa varanda a animarem o jantar com as suas melodias. Existirá realmente música erótica? Esta é uma questão subjectiva, mas há alguns instrumentos e ritmos sugestivos que convidam ao amor. No caso da comida os sons também podem ser afrodisíacos. Posso evocar sem hesitações o crepitar do azeite a fritar cebola; o ritmo sincopado da faca a picar legumes; o borbulhar do caldo a ferver... etc.

 

Nos jogos da comida e do erotismo são preferíveis, por razões óbvias, as formas fálicas e redondas: cenouras e pêssegos; as texturas polposas e húmidas, como tomates e abacates; as cores sensuais da pele e as concavidades mais íntimas – romãs e morangos – e os cheiros persistentes, como de mangas e alperces. Muitos legumes utilizados na literatura erótica devem a sua reputação de afrodisíacos apenas ao seu aspecto. Outros legumes fazem lembrar formas femininas, redondos e suaves como seios e nádegas. Ninguém que tenha pegado num tomate fresco com a mão e o tenha trincado, enchendo a boca enquanto o sumo escorre pelo queixo e pelo pescoço, escapa à tentação de o comparar a outros prazeres orais...

Depois de umas voltas completas pelo mundo dos afrodisíacos descubro que a única coisa que verdadeiramente me excita é o amor. A ligação entre a comida e o prazer sensual é a primeira coisa que aprendemos quando nascemos. Desde a aleitação até à morte que a comida e o sexo têm a mesma garra.

Existirá uma relação entre a criatividade e o erotismo?

 

EMENTA AFRODISÍACA

 

Os MOLHOS

Na feitura de pratos afrodisíacos, as mãos exprimem as nossas intenções: acariciam, confortam e trabalham. A boa mão para fazer um molho é como a boa mão para dar uma massagem... Os molhos sensuais, esses que o amante guarda em segredo junto dos gestos mais íntimos e atrevidos requerem imaginação. Fazer um molho com bons ingredientes é como fazer amor com um perito. Quase todos os sentidos entram em jogo: deve ser atraente ao olhar, como o rosto da pessoa amada, saboroso como um beijo, suave como as partes mais íntimas e deve ter um aroma único, intransferível, como a pele. 

 

Molho de Vinho (branco ou tinto)

O de vinho branco utiliza-se em aves, peixe e legumes de sabor delicado, o de vinho tinto em carnes vermelhas e legumes fortes (como cogumelos).

Ingredientes

 

1 chávena de caldo (de aves ou peixe se utilizar vinho branco; de carne, se utilizar vinho tinto)

2 colheres de sopa de manteiga

1 colher de sopa de farinha

½ de chávena de vinho branco (ou tinto)

2 colheres de sopa de xerez

Sal, alho em pó e pimenta

2 colheres de sopa bem cheias de natas batidas (opcional)

Preparação

 

Derreta a manteiga em lume brando.

Acrescente a farinha e coza   durante 2 minutos. Junte o caldo quente pouco a pouco, mexendo sem parar.

Acrescente o vinho e o xerez.

Naturalmente o molho fica mais liquido.

Deixe no lume até engrossar um pouco. Verifique os condimentos.

Se quizer engrossá-lo pode deitar natas batidas sem ferver.

 

A SOPA

O processo para fazer uma boa sopa passa pelas mesmas etapas que fazer amor bem, em ambos os casos se trata de mergulhar no prazer sensual de misturar, cheirar, provar, lamber, acrescentar, abster-se, duvidar, pôr mais... A sopa deve ser preparada tendo em conta todos os sentidos:visão, olfacto, sabor, textura e nalguns casos, som.

 

Caldo de Peixe

É o mais afrodisíaco de todos os caldos. Para a sua preparação pode utilizar restos de peixe, cabeça e rabo, crus. Também servem cascas de camarão, de lagostins e outros crustáceos, cruas ou cozidas.

Ingredientes

 2 cabeças e 2 rabos de peixe

1 cebola cortada em quatro

1 cenoura cortada em pedaços grandes

1 pedaço de aipo

2 dentes de alho

1 chávena de vinho branco seco

3 chávenas de água

Casca de limão e sumo de 1 limão grande

Louro, salsa, coentros, pimenta e sal

 

Preparação em panela normal:

Ferva o peixe em água durante 15 minutos.

Tire a espuma. Junto os outros ingredientes, incluindo o vinho.

Deixe ferver durante 45 minutos com a panela tapada.

Coe e deixe arrefecer. 

 

Preparação em panela de pressão:

Ponha tudo na panela de pressão e deixe ferver durante 30 minutos.

Coe e deixe arrefecer.

 

 

PRATO PRINCIPAL

Na cozinha o prato de fundo é o momento culminante de um almoço ou jantar. O que o antecede e a sobremesa são complementos encantandores, uma parte necessária da liturgia da mesa, mas só no prato principal se prova o talento de quem cozinha... este é o momento em que entramos em cheio em matéria culinária.

 

Prato de Peixe: Corvina com Natas

Pode fazer-se também com salmão ou outros peixes de carne firme.

Ingredientes

½ chávena de amêndoas laminadas, peladas e torradas

1/2 kg de corvina

(a parte central)

2 raminhos de alecrim fresco

½ cálice de vodca

2 colheres de sopa de manteiga

½ chávena de natas

1 limão, o sumo

1 pitada de noz-moscada

Sal e pimenta branca

Preparação

Lave o peixe e seque-o. Tempere com sal, pimenta e limão. Ponha-o numa travessa refractária untada com manteiga. Regue com o vodca.

Cubra-o com nozes de manteiga e raminhos de alecrim fresco.

Tape-o com papel de alumínio e deixe em forno médio durante 20 a 25 minutos.

Retire do forno e, antes de servir, junte as natas, noz-moscada e amêndoas torradas.

Deixe no forno mais cinco minutos, sem o papel de alumínio.

 

Prato de Carne: Lombo com champanhe

Ingredientes

2 bifes do lombo sem gordura

1 colher de sopa de azeite

1 dente de alho

1 raminho de várias ervas

½ chávena de tomates sem pele e picados

½ chávena de champanhe

2 colheres de sopa cheias de passas (brancas e sem graínhas)

Sal e pimenta preta moida grosseiramente

  

Preparação

Aqueça bem o azeite.

Ponha os bifes a alourar de um lado.

Tempere com sal e pimenta.

Dê-lhes a volta e aloure-os do outro lado.

Acrescente as passas, as ervas, o alho e o champanhe.

Deixe cozinhar durante 15 minutos na frigideira tapada.

Junte o tomate. Deixe cozinhar durante mais 5 minutos. Sirva.

 

AS SOBREMESAS

 

Depois de um jantar erótico que, colher a colher, conduziu os amantes através dos preâmbulos e jogos amorosos até ao leito, tem de haver um final feliz: a sobremesa. A apresentação da sobremesa é tão importante quanto o sabor. Tudo melhora banhado de licor e mais ainda se se acender um fósforo, ou for servido numa taça alta, enfeitada com chantilly.

Espuma de Vénus

Ingredientes

1 banana

½ maçã

½ laranja (sumo)

1 kiwi descascado

1 clara de ovo

4 colheres de sopa de açucar

1 colher de sopa de licor de hortelã

2 rodelas finas de limão

½ limão (sumo)

 

Preparação

Descasque as frutas e ponha tudo na máquina de sumos, menos as rodelas de limão.

Bata com força durante 3 minutos.

Coloque o creme em taças e enfeite com a rodela de limão no rebordo da taça.

Charlote dos Amantes 

Ingredientes

4 palitos La Reine esmigalhados

2 ovos

1 tablete de chocolate negro (75gr)

2 colheres de sopa de nozes moidas

2 colheres de sopa de nozes moídas

2 colheres de sopa de açucar

2 colheres de sopa de manteiga

½ chávena de café escuro concentrado

1 colher de sopa de conhaque

Preparação

Parta o chocolate e derreta-o em tacho de fundo duplo com 2 colheres de sopa de água.

Acrescente o açucar e a manteiga. Bata bem, juntando as gemas uma a uma.

Deixe cozinhar durante 5 minutos e tire do lume.

Bata às claras até ficarem firmes e incorpore-as no chocolate, juntamente com as nozes. Acrescente suavemente o café, o conhaque e os palitos La Reine.Coloque em duas taças largas e enfeite com chantilly.

... retirado do livro "Afrodite" de isabel allende



publicado por Sheila às 00:58
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