Sábado, 11 de Abril de 2009
Espaço Literário - post #2

  Este é o livro que ando actualmente a ler. Desculpem o longo post, mas vale a pena ler!

 

 

Titulo: No País das Mulheres Invisíveis – Uma médica no Reino da Arábia Saudita

Autora: Qanta A Ahmed

 

Quando inesperadamente lhe negam o visto de permanência nos Estados Unidos, Qanta Ahmed, uma jovem médica britânica muçulmana, torna--se subitamente uma pária e, num repente, aceita uma oferta de trabalho muito promissora na Arábia Saudita. Não se trata apenas de um emprego - trata-se de uma oportunidade de aventura num país exótico que ela julga entender, num lugar onde tem esperança de se sentir em casa. O que vai encontrar é algo, porém, completamente diferente. O Reino é um mundo à parte, uma terra de contrastes sem paralelo. Qanta descobre a rejeição e o escárnio nos lugares onde acreditava que seria especialmente acarinhada, mas também o humor, a honestidade, a lealdade e o amor vindos donde menos esperava. E para Qanta esta é, acima de tudo, uma terra de oportunidade. Um lugar onde compreende o que uma mulher precisa para se reinventar num país onde as mulheres são invisíveis.Qanta Ahmed passou a infância em Inglaterra, onde se formou na Faculdade de Medicina da Universidade de Nottingham. Tirou quatro especializações: em medicina interna, doenças pulmonares, medicina intensiva e perturbações do sono. Exerce actualmente na Carolina do Sul, EUA.

 

Capítulo 1

 

“Procurando uma pausa na intensidade da medicina, exercitei os olhos no mundo que estava mais além. Já o calor do meio da manhã se encrespava com fúria, quando os aspersores espalhavam as suas jóias molhadas na erva queimada pelo sol. Algumas pétalas esvoaçantes agitavam-se sob o vento do Shamaal, que era mais forte nesta altura do dia.

Num lago de sombra formado por uma sebe, um trabalhador abrigava-se do sol. Num estranho amontoado de membros secos e esguios, o Bengali ia almoçando caril e fruta. O pano do seu shemagh estava transformado num turbante ensopado em água, que era escasso alívio para o calor intenso. Mais adiante passou a rosnar um Mercedes de 100 000 dólares, que levantou uma tempestade de pó na sua esteira.

Por detrás da máscara, sorri para o meu reflexo. Suspensa entre vidraças, uma mulher de bata branca devolveu-me o sorriso. Por fora eu continuava a ser a médica que havia sido em Nova Iorque, mas agora tudo era diferente.

Regressei a Khalaa al-Otaibi, a minha primeira paciente no Reino.

Tratava-se de uma beduína saudita, já com mais de 70 anos, muito embora ninguém tivesse certeza acerca da idade dela (na Arábia Saudita não se registavam os nascimentos femininos quando nascera).

Estava ligada a um ventilador devido a uma pneumonia que levara tempo a resolver. Comatosa, não tomou consciência do meu olhar inquisidor. Um colega médico preparou-a para a colocação de uma ligação central (uma grande ligação intravenosa a uma veia profunda).

Durante os preparativos o torso dela ficou exposto. Um outro médico esterilizou-lhe a pele morena e avermelhada com compressas de iodo. Esse procedimento mundano, que eu já tantas vezes executara, dava origem na Arábia Saudita a uma cena surpreendente. Levantei os olhos do campo esterilizado que rapidamente submergia o corpo da beduína num descartável mar de azul. O rosto dela continuava envolto em panos pretos, como se ainda andasse a correr o mercado entre uma multidão de homens indolentes. Eu estava aterrada.

O véu esfarrapado ocultava-lhe todas as feições. Do meio de um poço de nylon negro que se afundava numa boca desdentada, saíam os tubos de plástico que se erguiam da sua purdah (o costume islâmico de ocultar a beleza feminina). Um dos tubos ligava seguramente o ventilador aos pulmões dela, e o outro enviava-lhe alimento para o estômago. Ocasionalmente o conjunto do véu e dos tubos estremecia, por vezes com um soluço, por vezes com a tosse. Cada um desses sons recordava-me que por baixo da máscara estava uma paciente em estado crítico. Através do nylon negro consegui distinguir umas compressas de protecção para os olhos, colocadas sobre as suas pálpebras fechadas. Cuidadosamente, a enfermeira ergueu a ponta do véu para permitir que o médico concluísse a esterilização. No meu enlevo, havia-me esquecido inteiramente de tal procedimento.

Das profundezas desse nylon negro e informe emergia um tubo mais grosso de plástico ondulado, o do circuito do ventilador principal. Era este que lhe sugava os respiros, silvando e balouçando a cada respiração produzida pela máquina. Sem um rosto na ponta, a tubagem desaparecia num vazio, como se ventilasse um véu e não uma mulher. Embora ela estivesse em estado crítico, ocultar-lhe o rosto era de suprema importância, aprendi eu. Encontrava-me arrebatada pelo confronto entre a tecnologia e a religião, a minha religião, uma certa versão da minha religião. Perto de mim ouviu-se uma agitado restolhar.

Atrás da Cortina pairava um membro da família, o filho obediente, que nos espreitava de vez em quando. Estava obviamente preocupado, achei eu, ao ver os seus esguios dedos morenos a desfiarem rapidamente um rosário. Provavelmente estaria em cuidados por causa da inserção da ligação central, como qualquer outro familiar que se prezasse.

Mas de vez em quando ele irrompia num fraseado rápido de vigoroso em árabe, dando instruções à enfermeira. Perguntei-me do que estaria ele a falar. Tudo estava a correr bem; na verdade, daí a pouco a veia jugular estaria canulada. Estávamos quase a acabar. O que poderia estar a preocupá-lo?

Por entre a minha obtusidade, lá discerni uma pista. De cada vez que a manga do médico tocava no véu da paciente e este deslizava, o filho irrompia nuns estertores de ansiedade. Teria talvez uns dezanove anos e exigia à enfermeira que cobrisse o rosto da paciente, enquanto afastava dolorosamente o seu olhar não-iniciado do torso completamente exposto da mãe, que possivelmente lhe revelava os primeiros seios que ela aguma vez vira.

Cada ordem que proferia era acompanhada por uns pesados murmúrios em arábe que emergiam por detrás da máscara do médico, o qual ia pedindo à enfermeira que fizesse isso mesmo e lhe compusesse o véu. O médico parecia despreocupado, mas o filho estava enredado numa agonizante teia de desconforto. Caminhava de um lado para o outro, vergado à ansiedade pela saúde da sua progenitora, à ansiedade pela dignidade dela, e à ansiedade pelas responsabilidades dela para com Deus. A doente em estado crítico, com o seu rosto velado e os seus seios expostos, descaídos pela idade, propiciava uma visão incrível. Eu sentia-me tão desconcertada quanto o jovem filho saudita.

Olhei para a paciente, completamente exposta, excepto no seu rosto velado, e para o frágil filho que supervisionava (e porque não uma filha? Pensava eu). Enquanto o rosto dela dormia, envolto no coma profundo induzido pela sedação, a visão daquele véu era muito perturbadora. Decerto Deus não exigira medidas tão extremas para ocultar as feições dela aos médicos que precisassem de lhe inspeccionar o corpo? Teria uma muçulmana doente e inconsciente as mesmas responsabilidade que uma outra que estivesse consciente e com um corpo inteiramente apto? Embora eu própria fosse muçulmana, nunca antes me havia confrontado com tais questões. O meu debate era íntimo e solitário; todos os que me rodeavam estavam muito cientes das suas obrigações. Como o paciente era uma mulher, tinha de estar velada. O médico ia dando instruções à enfermeira filipina para que esta acatasse as recomendações do filho. A filipina estava evidentemente habituada àquele espectáculo. E o filho conhecia os seus deveres para com a mãe. Só eu permanecia tolhida pela confusão.

A enfermeira removeu o véu para atender à passagem do ar, retirando desta toda a saliva que ali se havia acumulado durante a última meia hora. Agora que o nylon negro fora erguido, consegui finalmente ver a Sra. al-Otaibi. O seu rosto gasto e engelhado estava marcado pela dor (...)

As marcas que ostentava no rosto anunciavam uma mulher de elevado estatuto. (...) As pequenas mãos morenas haviam cerrado os punhos durante o sono. Abri-lhos e observei as unhas curtas e anémicas, orladas de um tom alaranjado. Eu sabia que aquela cor era henna. Olhei para as minhas mãos a segurarem as dela, e para as minhas unhas brilhantes e polidas a contrastarem com aquela manicura alaranjada! As minhas eram ocidentais, as dela eram orientais, tão diferentes, mas ambas em busca da mesma fantasia: alterar a cor das nossas unhas. (...)

No seu rotundo ventre, a superfície estava salpicada de diversas cicatrizes inexplicáveis: pequenas, perfurantes, e mais pálidas do que a pele circundante. Distribuíam-se de forma regular pelo quadrante superior direito do abdómen. Não estavam no sítio adequado a uma laparoscopia, mas eu não conhecia nenhum outro instrumento que ali pudesse deixar tais marcas. Olhei para o colega, intrigada.

- Ela foi ao xamã, ao curandeiro beduíno. Todas elas fazem isso. Vemos muitas vezes essas marcas nas nossas doentes hepáticas – disse-me ele

- O xamã usou um ferro em brasa para tratar a dor que a paciente provavelmente teve há uns meses.

Mais tarde também eu viria a observar que muitas pacientes ostentavam essas mesmas marcas, muitas vezes por procurarem alívio para as dores dos seus fígados inchados e inflamados. A hepatite é muito comum na Árabia Saudita, e na realidade o meu novo local de trabalho, o Hospital da Guarda Nacional do rei Fahad, em Riade, era um centro de excelência no tratamento de doenças hepáticas. Os mais pobres, que não haviam passado pelos muitos centros de saúde pública no reino e optavam pelos curandeiros tradicionais, quando procuravam a nossa ajuda, já os seus males iam bastante avançados.

E foi assim, entre a familiar e reluzente ambiência tecnológica dos Cuidados Intensivos, onde me sentia tão à vontade, que deparei com o desconhecido. Fiquei profundamente perplexa com a persistência das antigas práticas que o corpo desta mulher revelava. Mais perturbante ainda seria saber que papel desempenhavam os xamãs e outros curandeiros pagãos num mundo dedicado ao Islão, uma religião que sacraliza o avanço do conhecimento?

Interroguei-me sobre os cuidados a que o filho se entregava para cobrir a sua mãe, apesar dela estar gravemente doente. Será que não percebia que isso era o menos importante, agora que a vida dela se poderia finar a qualquer momento? Não saberia que Deus é misericordioso, tolerante e compreensivo, e que jamais reclamaria do uso do véu nestas circunstâncias – nem, julgava eu, em circunstância alguma?

De certa forma assumi que o véu lhe era imposto pelo filho, mas talvez me tivesse enganado acerca disso também. Começava já a achar-me muito ignorante acerca deste País. Talvez a própria paciente se enfurecesse caso a sua modéstia fosse desvelada enquanto ela estivesse incapaz de resistir. Para mim nada era evidente, a não ser que o uso do véu era essencial e incontornável, mesmo para uma moribunda.

Eram estes os hábitos do novo mundo em que eu estava agora encerrada. Porque daqui em diante, e durante os próximos dois anos, haveria de ver muitas coisas que não conseguiria compreender. Embora fosse muçulmana, aqui eu não passava de uma estranha no reino.”

 

Destaco no capítulo 2 ( A hora de deixar a América):

“Tendo-me sido negada a renovação do visto, chegara ao fim o mágico encanto pela minha imigração para os Estados Unidos. Falhado o derradeiro apelo para inverter o meu estatuto, decidira levar as minhas credenciais médicas para o Médio Oriente, onde a medicina americana era amplamente praticada. Os meus poucos anos haviam sido muito produtivos, e após algumas semanas de indecisão já não podia mesmo permanecer mais tempo nos EUA, pois fora contratada por um hospital na Arábia Saudita.

Acelerei o silencioso Lexus, e os limpa-vidros foram batendo as minhas mágoas ao ritmo de um metrónomo. Perguntei-me quando voltaria a estar sentada ao volante de um automóvel. Já estava informada de que na Arábia Saudita era ilegal uma mulher conduzir um carro. Em Riade estaria autorizada a efectuar qualquer procedimento nos doentes em estado crítico, mas nunca a conduzir um veículo motorizado. Só os homens podiam usufruir desse privilégio.”

 

 

Vou actualmente no 7º Capítulo. Confesso que não tem sido um livro fácil de digerir. Tinha já bem presente esta realidade, dado o último livro que tinha lido e do qual já falei aqui, mas e neste livro, a narração de uma Médica que passou do mundo Ocidental para o mundo Oriental transmite-me, sem qualquer dúvida, a bênção que é a minha liberdade total. Posso vestir o que quizer, tenho direitos, posso conduzir... vivo num mundo onde a igualdade de direitos entre homens e mulheres existe!

Se tivessemos isto sempre presente... talvez conseguissemos sentir o quanto somos uns felizardos e que desgostos de amor ou desamores, desmotivações laborais, ou outros problemas que podemos achar que temos, assumem uma insignificante importância nas nossas vidas!

 

 

Pensem nisso :)



publicado por Sheila às 01:13
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Segunda-feira, 23 de Março de 2009
Espaço Literário - post #1

Um dos meus vicios diários é a leitura. Por mês consigo devorar 2 a 3 livros... e é algo do qual não abdico. Preciso mesmo deste miminho diário. É rara a noite que me deito e não leio pelo menos por uns minutos. Há dias que não é fácil conseguir, dado o cansaço e o peso de me levantar cedo no dia seguinte... ou dali a umas horas para ser mais precisa!. Sou noctívaga por natureza, sempre me deitei tarde e dormi pouco e é complicado contrariar a minha essência :)

Por isso vou aproveitar aqui o meu cantinho para deixar algumas passagens e tecer alguns comentários pessoais a alguns livros que por boas ou más razões merecem ser destacados. Este post vai ser longo, mas valerá a pena perderem alguns minutos do vosso tempo a lê-lo. Infelizmente em pleno séc. XXI a história descrita é lamentavelmente verdadeira.

Inicio neste meu cantinho um espaço literário com a seguinte obra:

 

 

SULTANA

A vida de uma princesa árabe

by Jean P. Sasson

 

 

Sob o pseudónimo de "Sultana", uma princesa saudita - da casa real Al Saud - aceitou, arriscando a vida, relatar à jornalista e escritora norte-americana Jean P. Sasson todos os horrores, tragédias e humilhações a que, no limiar do século XXI, continuam a ser submetidas as mulheres nas sociedades mais retrógadas do mundo árabe. Utilizando nomes diferentes e alterando certos pormenores de alguns acontecimentos para proteger as pessoas envolvidas, "Sultana" descreve neste impressionante testemunho a incrível multiplicidade de actos tirânicos e bárbaros ditados por um obscurantismo implacável que promove a poligamia, dá ao homem o poder de castigar cruelmente qualquer mulher e incentiva os casamentos forçados, as mutilações e a violência sexual, as execuções por apedrejamento ou afogamento... 

 

A viver na realidade do Reino da Arábia Saudita, Sultana, descendente directa do rei Abdul Aziz, viveu na pele a infelicidade de ter nascido mulher, uma vez que os filhos varões eram muito desejados. A sua própria mãe vivia cada gravidez aterrorizada, rezando sempre para que o fruto que carregava no ventre fosse um filho macho.

 

Apesar do Corão ter uma “palavra amiga” para com as mulheres, não há nada que os homens não façam nem tenham feito, na terra da Sultana, para assegurar o nascimento de uma prole masculina e não feminina. O valor de uma criança na Arábia Saudita ainda é medido pela ausência ou presença do órgão reprodutor masculino. Por exemplo, na Arábia Saudita, o orgulho da honra de um homem tem por base as suas mulheres, como tal, têm que fortalecer a sua autoridade e supervisão relativamente à sexualidade das suas mulheres ou, então, enfrentar a vergonha pública. Convencidos de que as mulheres não têm controlo sobre os seus próprios desejos sexuais, torna-se, assim, essencial que o homem guarde cuidadosamente a sexualidade da mulher. Este total controlo nada tem a ver com amor, mas com o medo de que a honra masculina seja denegrida.

 

A autoridade de um homem saudita não tem limites, a sobrevivência da sua família depende exclusivamente da sua vontade. “Na nossa casa ele é a autoridade máxima.”

Todos os rapazes são ensinados, desde muito novos, que as mulheres pouco valem, que existem apenas para seu conforto e conveniência. “As mulheres do meu país são ignoradas pelos seus pais, desprezadas pelos irmãos e maltratadas pelos maridos. Este círculo é difícil de quebrar, pois os homens que impõem esta vida às mulheres garantem a própria infelicidade conjugal.” As mulheres vivem momentos de tristeza e angústia, mas, acredito que os homens não conseguirão ser felizes no meio de tanta infelicidade. Apesar de procurarem sucessivos casamentos, ao tratarem as mulheres como escravas, como propriedade sua, os homens acabam por ser tão infelizes como as mulheres que dominam. Eles próprios tornam o amor e o verdadeiro companheirismo inacessível a ambos os sexos. Eles nem se apercebem que a felicidade pode estar perto, no seu próprio lar, com a sua própria mulher.

 

“A história das nossas mulheres está enterrada por detrás do véu negro do secretismo. Nem o nosso nascimento, nem o nosso falecimento fica lavrado em qualquer registo oficial. Embora o nascimento de filhos varões seja documentado em registos familiares ou tribais, o das raparigas não consta em lado nenhum. A emoção que vulgarmente se exprime diante do nascimento de uma menina é a de desgosto ou vergonha.”

 

Na história apresentada, a princesa árabe, fez questão de descrever a forma como as mulheres se devem apresentar em público e conta que na Arábia Saudita, o aparecimento da primeira menstruação significa que é chegada a hora de escolher o primeiro véu e abaaya com o maior dos cuidados. Assistimos, assim, a uma realidade de menina tornada mulher. Entra na loja menina e sai transformada em mulher, velada, a partir desse dia. A vida das jovens moças muda em fracções de segundos.

A mulher muçulmana deve cobrir-se com um lenço e manter a sua cabeça e peito velados. No entanto, esse lenço ou véu não poderá ser de um tecido transparente que permita aparecer o seu cabelo. O véu tem como objectivo cobrir os pontos de beleza da mulher. No entanto, o uso do véu torna a mulher árabe tentadora e desejável.

 

Na Arábia Saudita, a escolha de uma rapariga para um casamento é determinada por vários factores, de entre os quais se destacam: o apelido da família, a fortuna da mesma, a perfeição física da moça e a sua beleza. E a escolha do noivo, apesar de ser feita pelo pai da moça, é tido em conta a posição social e a riqueza do “candidato”, não importando a idade, pode até ser mais velho que o próprio pai da rapariga!

Notem estamos a falar de crianças meninas com 12 anos que são obrigadas a casar com homens de 70 anos! Algo que para nós europeus é bárbaro e completamente revoltante!

Um homem chega a ter até 4 esposas, constituindo e suportando financeiramente 4 familias distintas.

 

Algumas passagens do texto que me marcaram e que me fazem dar Graças a Deus por ser europeia.

 

"Por volta dos meus doze anos, o meu pai tornara-se uma pessoa extremamente rica. Apesar da sua abastança, era um dos al-Saud menos gastadores. Mas construiu a cada uma das suas 4 familias palácios em Riade, Jeda, Taif e Espanha. Os palácios eram exactamente iguais uns aos outros em cada cidade, do tom das carpetes ao mobiliário escolhido. O meu pai detestava as mudanças e queria ter a sensação de estar na mesma casa mesmo quando se deslocava de avião de cidade em cidade. Lembro-me de o ouvir ordenar à minha mãe que comprasse tudo igual para todas elas, incluindo a roupa interior das crianças. Não queria que a familia se desse ao trabalho de fazer malas. Eu achava esquisito, sempre que entrava no meu quarto em Jeda ou Riade, encontrar roupas idênticas penduradas em guarda-fatos iguais. Os meus livros e brinquedos eram comprados aos quatro sendo cada um colocado em cada palácio. A minha mãe raramente se queixava, mas quando o meu pai comprou quatro Porsches para o meu irmão Ali, que na altura tinha só catorze anos, não pode deixar de barafustar que era uma vergonha... mas quando se tratava de Ali (o filho varão) não se olhava a despesas."

"Sara, a minha irmã preferida... usava o véu desde que fora menstruada (aos 14 anos). O véu relegara-a para o anonimato e em breve deixara de falar nos seus sonhos de infância de grandes feitos. A sua notável beleza tornara-se uma maldição, pois muitos homens tinham ouvido falar dela através das suas mães e irmãs e agora desejavam desposá-la. Sara desejava estudar arte em Itália e ser a primeira pessoa a abrir uma galeria de arte em Jeda. Foi com enorme tristeza que vim a saber que os sonhos de Sara jamais se concretizariam. Ainda que seja verdade que a maioria dos casamentos na minha terra é orientada pelas mulheres mais velhas da familia, na minha, quem tomava todo este tipo de decisões era o meu pai. Este decidira, fazia muito tempo, que a sua filha mais bonita casaria com um homem de elevada situação social e riqueza. O homem que ele escolhera para desposar a sua filha mais desejável era um membro de uma familia de comerciantes de Jeda com inegável influência financeira na nossa familia. O noivo fora eleito em vista exclusiva de negócios passados e futuros. Tinha 62 anos de idade. Sara seria a sua terceira esposa!"

"Normalmente o meu pai vinha até à nossa villa de 15 em 15 dias. Os homens que cultivam o islamismo e têm 4 mulheres, distribuem equitativamente as suas noites, de maneira a que cada esposa e respectivos filhos desfrutem de um período de tempo igual".

O casamento de Sara: "Não tardou que o meu pai e o noivo aparecessem. Eu sabia que este era muito mais velho que o meu pai, no entanto a primeira visão que tive dele foi decididamente revoltante. Imaginá-lo tocar na minha irmã, tão sensível, fez-me encolher. O noivo esboçava um sorriso de esguelha ao levantar o véu da minha irmã. O medicamento tornara esta demasiado entorpecida para reagir, fazendo-a ficar parada a olhar para o seu novo senhor. A verdadeira cerimónia já fora celebrada semanas antes do casamento, nenhuma mulher estivera presente. Somente os homens haviam participado nela, pois tratara-se de assinar os acordos relativos ao dote e documentação."

A morte da mãe de Sultana: "Os criados sudaneses já haviam cavado uma sepultura no deserto infindável da nossa terra. O corpo da nossa mãe foi ternamente depositado na cova e o pano branco foi afastado do seu rosto por Ali, o único filho terreno que tinha. Ao ver os criados deitarem a areia vermelha de Rub al-Khali para cima do seu rosto e corpo, encolhi-me. Deixámos a nossa mãe para trás, na vastidão vazia do deserto, no entanto eu sabia que já não importava que não tivesse ficado nenhuma lápide a marcar a sua presença ali, ou que não tivesse havido nenhum serviço religioso a falar da mulher simples que fora uma chama de amor durante todo o tempo que passara na Terra. Um mês depois soubemos, através de Ali, que o nosso pai se preparava para casar de novo, pois, na nossa terra, o normal é haver quatro esposas entre os muito ricos. O meu pai tencionava desposar uma das primas reais, Randa, uma jovem com quem eu brincara em pequena há muito tempo, parecia-me. A jovem noiva tinha quinze anos, mais um do que eu, que era a filha mais nova que ele tivera com a minha mãe. Quatro meses depois do enterro da minha mãe, fui ao casamento do meu pai. Sabia que a memória da minha mãe, depois de esta lhe ter dado dezasseis filhos e muitos anos de obediência, estava a ser tranquilamente desrespeitada pelo meu pai."

Sultana viria a  casar, aos 16 anos, com um primo real chamado Karim, que tinha 28 anos de idade. "Sultana seria a sua 1ª mulher. Karim estudara Direito em Londres. E o que ainda era mais fora do comum, distinguira-se da maioria dos primos reais, pois detinha uma posição importante no mundo dos negócios. Abrira, recentemente, uma enorme firma de  Advogados em Riade. Nura acrescentou que eu era uma rapariga cheia de sorte, pois Karim já dissera ao meu pai que, antes de fundar uma familia comigo, quería que eu completasse os meus estudos. Não desejava uma mulher com quem não pudesse comunicar intelectualmente". "Quando o meu pai me deu a novidade, dancei pelo quarto, louca de alegria. Ia conhecer o homem que seria o meu marido antes de o desposar! As minhas irmãs e eu ficámos espantadissimas, pois não  se tratava de um costume aceite na nossa sociedade; éramos prisioneiras que sentiam as grilhetas da tradição, sempre presentes, aligeirarem-se." Sultana descreve-nos depois o casamento, a vida de casada, o nascimento dos filhos, a escolha de uma 2ª esposa para o marido e todos os seus sentimentos face à evolução da sua própria realidade. Há, sem dúvida, muito mais que ler neste livro.

 

A vida de uma princesa árabe ofereceu uma perspectiva realista duma sociedade em sofrimento. Através da vida de Sultana percebi que enquanto as sociedades modernas se esforçam por melhorar as condições de vida de todos os povos, existem mulheres, que continuam a fazer face a uma autêntica ameaça de tortura ou morte sob o domínio primitivo do sexo masculino. As costuras do manto da escravatura feminina são cosidas com a linha forte da vontade masculina em se agarrar ao seu domínio histórico sobre as mulheres. “As mulheres do meu país podem estar escondidas pelo véu e firmemente controladas pela nossa rígida sociedade patriarcal, mas a mudança virá, pois o nosso sexo está farto da restrição de costumes. Ansiamos pela nossa liberdade pessoal.” – afirma Sultana.

Eu também anseio que esta realidade seja ultrapassada num futuro breve e próximo.

Actualmente Sultana é ainda viva e está na casa dos 50 anos.

 

Em continuidade a esta história sairam mais 2 livros, que conto ler em breve. São eles "As Filhas da Princesa Sultana", onde Sultana fala-nos das suas duas filhas: uma que se atreveu a ter uma relação proibida, com outra mulher; a segunda que se tornou uma religiosa fanática, disposta a destruir tudo aquilo por que a mãe lutou; e Deserto Real — Lutas e Vitórias da Princesa Sultana, em que Sultana continua o mesmo combate: o casamento forçado de uma sua sobrinha com um homem muito mais velho, cruel e depravado, e a descoberta de um harém de escravas sexuais mantido por um primo, tornam-na cada vez mais determinada na sua luta contra a opressão a que são sujeitas as mulheres numa grande parte dos países muçulmanos.
 

Boas Leituras! 



publicado por Sheila às 09:55
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